Por Dra. Zilda Arns Neumann
Médica pediatra e sanitarista, Coordenadora Nacional da Pastoral da Criança
Representante Titular da CNBB no Conselho Nacional de Saúde.

Promover a saúde pública é uma técnica e uma arte. Na realidade, a base dela está nas raízes do bem-estar de cada indivíduo, marcado desde a concepção, de forma especial pela genética, pela cultura, isto é, sua maneira de pensar, sentir e agir, e pelo meio ambiente em que vive.

Portanto, a saúde do indivíduo depende dele e da coletividade; depende da família em que vive, da comunidade onde está inserido, da nação, das nações.

Promover a saúde para a qualidade de vida é fazer com que o indivíduo se torne ator ele próprio, sinta-se ele corresponsável pela sua saúde e pela saúde da coletividade, isto é, pela harmonia dele com os demais, e dos demais entre si.

Últimas pesquisas da OMS - Salud Mental y desarrollo psicossocial de la niñez, lineamentos básicos y propuesta de un plan de acción interagencial a nivel regional - revelam que uma criança maltratada no primeiro ano de vida tem tendência à violência e à criminalidade.

Se transportarmos a promoção da saúde para a qualidade de vida das populações mais carentes e bolsões de miséria, redutos concentrados de doenças, baixa escolaridade, fome, violência, mortes prematuras, e quisermos que seja efetiva, alguns parâmetros são necessários para que haja sucesso:

1. Haver decisão política do governo, de forma interinstitucional, do poder legislativo, do judiciário e principalmente da sociedade para participar da construção de uma sociedade justa e fraterna, com saúde e qualidade de vida para todos;

2. Ter objetivos definidos; o que queremos mesmo alcançar?

3. Escolher metas que atinjam as raízes dos problemas especialmente os que mais deterioram o ser humano, maior alavanca para mudanças;

4. Selecionar prioridades e os grupos humanos mais vulneráveis;

5. Identificar pessoas, lideranças na própria comunidade, para apontarem caminhos; com a mesma cultura, vivenciando o dia a dia, elas têm potencial para se transformarem em agentes de promoção da paz, isto é, da saúde para a qualidade de vida, que inclui, de forma prioritária, os mais marginalizados e, desses, os grupos que mais influem no desenvolvimento do ser humano;

6. Organizar um sistema de capacitação dessas lideranças e de acompanhamento dos seus esforços;

7. Ter um sistema de informação, simples e moderno, ágil, preciso, intelegível aos usuários, baseado em indicadores de impacto alcançado, com capacidade de retornar às lideranças comunitárias, com sugestões baseadas nos objetivos alcançados;

8. Maximizar a resolutividade dos problemas na própria comunidade;

9. Organizar a referência e a contra referência, com os serviços de saúde, de forma especial, com os Postos de Saúde, as Maternidades e Hospitais, para referendar os pacientes, especialmente os de maior risco; todos falando a mesma linguagem, conscientes dos objetivos; nas cidades maiores, experiências concretas apontam a efetividade de uma central de vagas, para controle da demanda;

10. Er uma mística de trabalho voluntário, que promova a auto estima e a referência, o apoio mútuo, o sentido da unidade;

11. Fortalecer o controle social das políticas públicas, nas diversas áreas, com representantes dos usuários capacitados, no alcance dos objetivos da promoção da saúde para a qualidade de vida.

12. Ser barato, disseminável com facilidade e aceito culturalmente;

O Brasil tem excelentes condições para colocar em prática a efetiva participação comunitária, na promoção da saúde para a qualidade de vida, e essa será sem dúvida uma das maiores alavancas para que ocorram as mudanças necessárias; o cuidado que se deve ter é de não se perder de vista a chave mestra: "agente de sua promoção", e para tanto, o voluntariado é fundamental e decisivo.

Como exemplo, a Pastoral da Criança, experiência que está dando certo há 13 anos seguidos, desde setembro de 1983, implementa cada vez mais esse perfil e, sem dúvida, vem cumprindo papel fundamental, com técnica e arte, em 2.476 municípios brasileiros, atuando em 21.895 comunidades carentes em bolsões de miséria, através de 77.563 líderes comunitárias voluntárias treinadas, que acompanharam, no 1º trimestre/1996, a 2.642.858 crianças menores de 6 anos, 126.767 gestantes, e 1.902.554 famílias; o seu sistema de informação aponta, entre outros indicadores de impacto, a redução da mortalidade entre os menores de 01 ano, de 17,8 mortes em cada mil crianças menores de um ano acompanhadas pela Pastoral no referido trimestre.

Não deve essa participação comunitária ser vista como complementariedade do sistema de saúde, mas parte ativa, imprescindível e estimuladora, fiel amiga e companheira de luta pela consolidação do SUS, que leva à qualidade de vida para toda a população, com prioridade aos excluídos da sociedade.

A 10a Conferência Nacional de Saúde, atenta aos clamores do povo e de posse de vasta experiência social do SUS, se valorizar a participação efetiva da comunidade, terá todas as condições para formular estratégias seguras que consolidem os caminhos da promoção da saúde para a qualidade de vida.

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