BOLETIM DA REBIDIA - ANO 2 N 11 - NOVEMBRO DE 1998
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Pastoral da Criança - AMEPPE - ESQUEL
REBIDIA: busca constante de políticas públicas para o bem comum

O maior desafio que enfrentam hoje os governos federal, estaduais e municipais e as entidades ligadas àbole11a área de saúde é a busca da melhoria da qualidade e a humanização do serviço prestado. Enfrentar esse desafio, especialmente em tempos de crise econômica, impõe racionalizar os recursos com base na natureza das doenças e da violência, valorizar a tecnologia que prioriza a prevenção e investir na participação comunitária, como principal agente de mudança social.

Estudos recentes comprovam que a absoluta maioria das doenças que matam as crianças no Brasil, bem como as várias formas de violência contra elas e as mulheres, começam em casa; têm muito a ver com a situação da mãe, da família, do seu grau de instrução, de sua educação para a saúde, saneamento ambiental, acesso aos alimentos básicos, organização do acesso aos serviços de saúde por níveis de complexidade crescente e ainda, entre outras coisas, o fato de não terem amigos a quem recorrer nos momentos mais difíceis, o que ajudaria muito a superar dificuldades individuais e familiares. Esses mesmos estudos e a experiência demonstram ainda que a participação efetiva das entidades comunitárias na prevenção da doenças, na promoção da saúde e na organização do sistema de referência e contrareferência nessa área, é fundamental na busca de maior resolutividade desses problemas.

Conhecendo melhor alguns mistérios da vida

Pesquisa da OMS (Organização Mundial da Saúde), intitulada "Salud mental y desarrollo psicossocial de la niñez: lineamentos básicos y propuesta de un plan de acción interagencial a nivel regional", cujos resultados foram discutidos em dezembro de 1994, em Montevidéu, Uruguai, comprova entre outras coisas que crianças maltratadas antes de completarem o seu primeiro ano de vida têm significativa tendência à violência e até à criminalidade. Outros estudos comprovam a importância, por exemplo, da educação infantil, que começa quando a criança ainda está na barriga da mãe, como fator importante para o seu desenvolvimento. Também são recentes os estudos sobre creches provando, por exemplo, que elas não servem como espaço de recuperação de desnutridos nem propiciam melhor desenvolvimento infantil, pois a criança evolui da mesma forma que em casa. Para isso, fica muito mais barato e dá melhores resultados apoiar e orientar as famílias a cuidarem de seus filhos. Outra opção é transformar a creche num centro de desenvolvimento infantil, o que é a sua vocação e justificaria plenamente sua existência.

Vale a pena trazer para esta reflexão as experiências com brinquedotecas comunitárias, onde pessoas voluntárias comprometemse a colaborar, ainda que por algumas horas na semana, no incentivo ao ato de brincar das crianças, como instrumento de desenvolvimento infantil. As mães e demais familiares, acompanhando e participando das brincadeiras de seus filhos, aprendem a conhecê-los melhor e a ajudar na sua aprendizagem. Esta iniciativa têmse mostrado uma forma válida, barata e eficiente de ajudar as famílias na promoção do desenvolvimento de suas crianças, mais especialmente em comunidades carentes, onde as necessidades são sempre maiores. Além disso, esta forma de atuação social possibilita aos jovens um fundamental engajamento na construção de um mundo mais solidário.

Há ainda outros estudos, realizados sobre o problema da prostituição de crianças e adolescentes, que demonstram que geralmente as prostitutas são pessoas com baixa autoestima, fator que se desenvolve principalmente nos primeiros anos de vida. E o desenvolvimento da autoestima tem sido uma das grandes preocupações da Pastoral da Criança nos últimos anos.

Com apoio do FNUAP e do Ministério da Saúde, assessorada por pesquisadores de universidades de diversas regiões do país, a Pastoral da Criança realizou em 1996 uma extensa pesquisa qualitativa para conhecer as necessidades básicas de aprendizagem em temas de afetividade e sexualidade em comunidades carentes de áreas urbanas e rurais onde atua. Nos resultados preliminares identificase, entre outros, a responsabilidade solitária da mulher na criação e educação dos filhos, a falta de diálogo na família e violência entre marido e mulher e destes com seus filhos, o desconhecimento e as dificuldades de acesso ao planejamento familiar, a desinformação em relação às doenças sexualmente transmissíveis como a AIDS e a grande carência e necessidade expressa de oportunidades de aprendizagem dos grupos de jovens, de adultos e velhos.

Problemas que podem ser evitados

A absoluta maioria das crianças portadoras de deficiência é vítima da falta de assistência adequada durante a gravidez, da falta de organização do acesso ao parto com qualidade, ou do inadequado manejo da criança nos primeiros momentos e dias após seu nascimento. Essas mesmas causas se espelham também na mortalidade infantil neonatal precoce (1 a 6 dias de vida) e neonatal tardia (7 a 28 dias de vida), que representam respectivamente 46,9% e 12,0% de todas as causas da mortalidade no primeiro ano de vida.

Se analisarmos as causas da mortalidade materna, isto é, dessas que acontecem durante a gravidez, no parto ou em conseqüência dele, vemos que as origens, na maioria das vezes, são as mesmas e podem ser combatidas com os mesmos instrumentos de redução das causas de mortalidade neonatal.

A casa de espera das gestantes, que moram em locais de difícil acesso ou que são de alto risco, tem ajudado muito na solução dessa mortalidade.

Assumindo o controle da saúde da criança

O Conselho Nacional de Saúde, em sua reunião ordinária realizada nos dias 7 e 8 de outubro de 1998, ao debater a "Agenda para o controle social da política nacional de saúde da criança", aprovou por unanimidade que a prioridade dos problemas de saúde da criança decorre de três aspectos complementares, todos eles extremamente importantes:

1. O comprometimento do futuro representado pelo subdesenvolvimento físico, mental e social de crianças que poderiam ter suas enfermidades, incapacidades e mortes evitadas;

2. A vulnerabilidade da maioria desses problemas a medidas e propostas de intervenção simples, disponíveis e com eficiência comprovada;

3. A relação custoe-fetividade e custo-benefício altamente favorável dessas intervenções, visto que são relativamente baratas e de alto impacto social.

Outro ponto que merece atenção aqui é a questão da Segurança Alimentar, que não é só uma questão de controle da desnutrição, mas de direito de cada cidadão. Experiências têm demonstrado que a efetiva participação de organizações não governamentais, com experiência nessa área, em comissões intersetoriais nos diversos níveis, mas principalmente nos municípios, é de fundamental importância. Para ser efetivo, é importante que o programa considere o acesso de todas as famílias carentes aos alimentos básicos. Por outro lado, a produção local ou regional de alimentos a serem adquiridos ou produzidos pelos programas governamentais é ponto estratégico não só para resolver a disponibilidade de alimentos, mas promover também o desenvolvimento local da produção de alimentos. Exigências burocráticas e outras que dificultam essa estratégia devem ser eliminadas com a implementação de medidas que garantam a qualidade.

Como exemplo absurdo, podemos citar centenas de municípios onde programas oficiais exigem que, para entrar na concorrência pública, o leite seja previamente esterilizado. Isto exige equipamentos caros e exclui o pequeno produtor que produz perto daquela escola, creche ou Posto de Saúde, de se habilitar à concorrer. Ora, o pequeno produtor pode oferecer leite fresco, integral, sem conservantes e de boa qualidade pela metade do preço, bastando que se oriente o consumidor a ferver o leite antes de consumilo. Aliás, a educação é sempre necessária, mesmo com leite esterilizado. Se os canecos estiverem sujos ou se for misturada água contaminada ao leite em pó, a possibilidade de incidência de diarréias é muito maior. Por isso, a orientação e acompanhamento educativo do consumidor supera exigências que prejudicam o fiel desempenho e barateamento de programas de Segurança Alimentar, que podem melhorar à medida que estão sendo executados.

A lei favorece a criação de microempresas, por que não orientar e criar essas e outras condições para baratear e tornar mais efetiva a solução desses problemas nesse momento de crise econômica?
Experiências que fazem a diferença

As experiencias mais importantes na área da saúde estão diretamente ligadas à aproximação com o foco das causas dos problemas, ou seja, a família e a comunidade em primeiro lugar. Significa a mudança nas prioridades do modelo, que tem sua base na promoção da saúde e na prevenção das doenças facilmente preveníveis. Um exemplo disso é o trabalho comunitário da Pastoral da Criança, criada exatamente com esse objetivo, em 1983. Ela é formada por voluntários que moram em comunidades carentes e são capacitados e reciclados em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Eles assumem o compromisso voluntário de visitar mensalmente as famílias vizinhas, democratizar as informações que recebem e apoiar as famílias em suas dificuldades, dentro de um contexto comunitário. Desde o seu início este serviço provou reduzir drasticamente a mortalidade infantil e a desnutrição, além de aumentar a consciência coletiva sobre a possibilidade da própria comunidade ser o maior agente de sua transformação social.

Posteriormente, em 1991, foi criado o PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde), em que os agentes trabalham oito horas por dia, recebendo remuneração do governo, e realizam trabalhos similares na área da saúde. Completando esses dois programas, em 1994 iniciou-se o Programa Médico da Família, que procura tratar as doenças mais comuns na própria comunidade, servindo de referência e apoio, aos líderes comunitários da Pastoral da Criança e aos agentes comunitários de saúde.

Esse modelo torna-se extremamente interessante e deveria ser implementado, na medida do possível, em todas as comunidades carentes, assegurando a sua qualidade técnica e humanitária. O seu relacionamento direto com as famílias humaniza a assistência à saúde e transcende à sua área.

É importante, entretanto, termos presente que ainda em centenas de municípios não há médico residente e, em muitos outros, não existe interesse de médicos brasileiros de lá se fixarem. Com isso, são muitos os municípios que estão sendo atendidos de forma ilegal por médicos de outros países, que se sujeitam às más condições de vida e às dificuldades no exercício da profissão, salvando vidas humanas brasileiras.
A Voz do Povo

Uma pesquisa realizada em 1998 pelo IBOPE, sobre o que os brasileiros acham da Saúde Pública demonstra que 90% consideram que têm direito aos serviços médicos gratuitos, 42% acham que na prática isto funciona, 78% acham que a descentralização é uma boa idéia e 50% acham que a implantação do SUS está dando certo. Sobre o item qualidade dos serviços públicos, 41% acham que está melhorando, 75% acham que a qualidade do atendimento médico está satisfatório e, veja bem, 33% consideram em primeiro lugar a importância de ser atendido com respeito e atenção na rede pública.

Tendo esta pesquisa em mãos e valendome tanto da experiência da Pastoral da Criança como de outros países, como Cuba e Canadá, acredito que a mudança do modelo de saúde no Brasil está no caminho certo e vai se concretizando gradualmente. Implementar a descentralização da saúde, sem engessar as iniciativas locais e valorizando a participação do terceiro setor, especialmente do voluntariado na base, levará o Brasil a exportar para outros países em desenvolvimento esta forma de gerir essa área tão crucial para a população. Para isso, precisam ser valorizadas as tecnologias consolidadas no Brasil, com o apoio do Ministério da Saúde, de participação organizada da comunidade, que conhece os objetivos e instrumentos mais efetivos, soma e articula esforços e quer participar da construção de uma sociedade justa e fraterna, a serviço da vida e da esperança.

O importante é desenvolver a resolutividade, tornar mais barato e efetivo o trabalho em todos os níveis, a começar pela comunidade, base do sistema. Assim, menos pessoas necessitarão de atendimento ambulatorial que, por sua vez, poderá estar mais bem equipado, com pessoal capacitado, medicamentos e melhor integração com as comunidades e os hospitais, servindo de referência e contrareferência chave no sistema de saúde. Com essa racionalização do sistema, que exige investimento inicial, com o tempo, isto é, quando se consolidar, muito menos pessoas serão internadas nos hospitais, que poderão oferecer melhor qualidade, inclusive com internamentos no próprio domicílio, humanizando a atenção e reduzindo os gastos com infecções hospitalares.

Na realidade, paralelamente às ações de saúde propriamente ditas, elevase a consciência social, que força a articulação intersetorial, para elevar a qualidade de vida para todos, mais especialmente na área do saneamento ambiental e da educação.
Estratégias importantes para a Saúde

Em função das considerações feitas até aqui, torna-se fundamental consolidar em todos os municípios do Brasil a atenção básica à saúde, o PAB, a começar pelas famílias dos bolsões de pobreza e miséria, existentes em cada município, e mais especialmente das periferias urbanas das grandes metrópoles e nas áreas rurais. Para tanto, a organização para a resolutividade de cada nível de atenção, a começar pelas famílias, e do sistema de referência e contrareferência são pontos fundamentais para que se alcancem a melhoria dos indicadores de saúde, como por exemplo, a redução drástica da mortalidade infantil e materna, da desnutrição, das infecções preveníveis por vacinas, as endemias e epidemias, além da cruel violência intrafamiliar e comunitária.

Para isso, sugiro que comecemos o trabalho a partir do seguinte roteiro:

a) o mapeamento das áreas de pobreza e de miséria no município, que normalmente se constituem também na concentração da mortalidade infantil e materna e da violência;

b) a busca da soma de esforços e a articulação com as organizações comunitárias que têm experiência nessa área de prevenção das doenças e da promoção da saúde nas famílias, com características dos similares ao PACS. Para isso, poderseá valer dos critérios aprovados pelo Conselho Nacional de Saúde, como a Agenda para o Controle Social da Política Nacional da Saúde da Criança e a Resolução 259 de 04 de Dezembro de 1997, onde são indicadas ações prioritárias para o desenvolvimento da atenção básica em nível familiar, dentro de um contexto comunitário, respeitando os valores e a cultura da comunidade:

c) promoção da saúde da gestante priorizando: nutrição, prevenção de doenças próprias da gravidez anemia, doença hipertensiva e outras; preparo para o aleitamento materno: encaminhamento a Serviços de Saúde para o controle prénatal: organização e desenvolvimento de estratégias que assegurem a assistência ao parto garantindo a necessária tranqüilidade à gestante, especialmente em locais de difícil acesso; atenção ao puerpério;

d) promoção do aleitamento materno exclusivo até no mínimo aos quatro meses de idade e de preferência até aos seis meses;

e) vigilância nutricional e acompanhamento do desenvolvimento infantil das crianças menores de seis anos;

f) educação nutricional das famílias, incentivando o uso de produtos regionais de alto valor nutritivo e baixo custo;

g) promoção da vacinação de rotina, com encaminhamento das crianças e gestantes à Unidade de Saúde de referência ou propiciando a vinda de vacinadores às comunidades de difícil acesso;

h) prevenção das diarréias e promoção da reidratação oral;

i) prevenção das doenças respiratórias agudas, com identificação de sinais de risco e encaminhamento dos casos suspeitos de pneumonia à Unidade de Saúde de referência;

j) desenvolvimento de ações educativas para a prevenção de acidentes domésticos e na comunidade;

k) desenvolvimento de ações educativas para a prevenção da violência doméstica da comunidade;

l) ações educativas para o planejamento familiar, climatério e doenças sexualmente transmissíveis especialmente a Aids;

m) ações educativas para a prevenção do câncer cérvico-uterino e de mama;

n) contribuir para a prevenção e controle de doenças endêmicas e outras de alta prevalência na mesma comunidade;

o) ações educativas e outras para a proteção do meio-ambiente.

Para estimular a participação comunitária, as metas do PAB a serem alcançadas não podem ter como referência o número de agentes atuantes mas, principalmente, a cobertura realmente dada às crianças, às gestantes e às famílias acompanhadas a cada mês em casa. Isto porque o número de famílias por agente é diferente conforme a região e principalmente porque o que interessa realmente é se a assistência foi efetivamente realizada.

Para sermos coerentes com os objetivos do PAB, devemos possibilitar em suas metas a inclusão do enorme potencial do trabalho voluntário para cobrirmos o maior número possível de comunidades pobres e bolsões de miséria.

Outras metas a serem pautadas são igualmente importantes e se referem aos resultados em relação aos objetivos propostos, como por exemplo: incidência de baixo peso ao nascer, aleitamento materno exclusivo aos quatro meses, cobertura vacinal, desnutridos, mortalidade infantil e materna e outros, incluindo o uso adequado do cartão da gestante e do cartão da criança.

A NATUREZA É EXTREMAMENTE SÁBIA

O aleitamento materno exclusivo nos primeiros quatro meses de vida, de preferência até o sexto mês, é capaz de reduzir em quatro vezes a mortalidade infantil por doenças respiratórias e em mais de quatorze vezes a mortalidade infantil por diarréias.

Ora, no Brasil, após a mortalidade neonatal, as doenças respiratórias são a segunda causa da mortalidade infantil (20%) e as diarréias são a terceira causa (18% do total).

As pesquisas demonstram ainda que as crianças que mamam no peito são beneficiadas com melhor desenvolvimento afetivo e da sua inteligência, psicomotricidade; têm mais defesas contra infecções e alergias, têm melhor autoestima, além de outros ganhos.

Continuando a mamar no peito, por mais de um ano, de preferência por mais de dois anos, a criança ainda desenvolve imunidade contra certos cânceres e outras doenças pelo resto de sua vida; é indicado ainda como instrumento de prevenção primária contra a violência e de uma vida mais saudável na velhice.

A Importância do Contexto Comunitário

Considerando os diversos estudos expostos na introdução e pela experiência comunitária da Pastoral da Criança, consolidada em mais de vinte sete mil comunidades de três mil municípios em todos os estados do País, gostaria de acrescentar que o contexto comunitário para a saúde da criança e da família é de tamanha importância que, além dessas ações básicas, poder-se-á executar outras para maximizar e universalizar instrumentos que levam à prevenção da violência familiar e das doenças mentais, cada vez mais presentes em nossa sociedade, com metodologia que favoreça o relacionamento dentro da família e entre as famílias na comunidade, como por exemplo:
u a educação de grupos comunitários para a afetividade, a sexualidade e o planejamento familiar com metodologia específica. A Pastoral da Criança vem testando o que chamou de "Rodas de Conversa", nas quais todos ensinam e todos aprendem. Para a solução desses problemas é imprescindível a participação comunitária na coordenação e no desenvolvimento dessas atividades, que são precedidas de capacitação de coordenadores, monitores e animadores. Esta ação têm se beneficiado da presença de profissionais de diversas áreas públicas, especialmente da saúde, da educação e da comunicação social e beneficia simultaneamente grupos de jovens, de adultos e velhos, da mesma comunidade, para dar maior impacto;

u a visita domiciliar, já executada pela Pastoral da Criança há quinze anos e pelo PACS Programa de Agentes Comunitários de Saúde há oito anos, poderá ser muito enriquecida pela capacitação também no campo da auto-estima e valorização da amizade entre os líderes ou agentes e as famílias por eles acompanhadas;

u a extensão para comunidades carentes de ações que ajudam a prevenir o estresse, determinado em grande parte pelas más condições de vida e de educação para a convivência humana, através de Terapias Comunitárias, executadas pela Pastoral da Criança, há três anos, em projetos pilotos de diversas regiões, com a assessoria técnica da Universidade Federal do Ceará e de profissionais do setor de saúde mental de secretarias da saúde estaduais ou municipais, têm se mostrado um instrumento eficiente para o bem-estar das pessoas e para a solidariedade humana. Paralelamente às terapias, a abordagem corporal pelas massagens e fitoterapia tem sido valorizadas pelas comunidade. Esse programa de saúde mental comunitária está na fase final de seleção de indicadores de acompanhamento e avaliação de resultados a serem informatizados, como é norma, afim de que possam ser melhor gerenciados. Os materiais educativos a serem usados foram testados e estão na fase final de elaboração;

u a prevenção primária da violência familiar dá-se mais especialmente pela atenção integral à criança, desenvolvendo sua auto-estima, enfocando o aleitamento materno e a estimulação precoce, a educação da criança através do brincar, falar, cantar e andar em seus primeiros anos de vida. Além das visitas domiciliares e outros instrumentos de educação das famílias para os cuidados com as crianças, as brinquedotecas comunitárias, que gradualmente estão sendo implementadas, procuram educar na prática os responsáveis pelas crianças para a grande influência do brincar, do ouvir e do respeitar as crianças para todo o seu futuro;

u promover estudos e troca de experiências sobre Município Saudável, que valoriza a cultura local e a participação comunitária para o alcance dos seus objetivos, é uma estratégia que fortalece os esforços na área da saúde e a visão sistêmica da saúde para o desenvolvimento integrado e integrador que gera a paz pela inclusão social e o espírito de co-responsabilidade e interdependência.
Outras estratégias para racionalizar, humanizar, baratear
e implementar a qualidade das condições de atenção à saúde
poderiam ser citadas como:

1. Melhor organização dos serviços ambulatoriais e hospitalares, com capacitação dos recursos humanos, para atenção mais humanizada, materiais e medicamentos básicos;

2. Organização da referência e contra-referência entre os serviços de saúde dos diversos níveis, priorizando:

a) Central de Vagas para o parto, no município ou na microregião;

b) Casa de Apoio da Gestante, destinado às gestantes de alto risco ou que moram distantes da maternidade, para que no último mês de gestação possam aguardar tranqüilas o momento do parto, além de aprenderem mais sobre os cuidados com a família, as crianças e consigo mesmas;

c) Incentivo ao Programa Parto Seguro, para a melhoria da qualidade da atenção ao parto e das crianças recém-nascidas;

d) Implementação do programa Hospital Amigo da Criança, para incentivo ao aleitamento materno, humanização e melhoria técnica na atenção às crianças que necessitam de internamento hospitalar;

e) A imprescindível participação comunitária na solução dos problemas de saúde e na prevenção da violência Disponibilidade de medicamentos básicos, com sistema de controle de estoque informatizado e em rede, para evitar que faltem nos ambulatórios e hospitais/maternidades públicos e conveniados;

f) A articulação inter-setorial na área de saneamento ambiental, priorizando a disponibilidade de água potável, de áreas de lazer, de esgoto, arborização, bem como a alfabetização de jovens e adultos, de ensino da saúde nas escolas, a educação para o trabalho e outros que influem drasticamente no nível de vida e de saúde da população, especialmente a mais pobre.

Pastoral da Criança

O Brasil possui uma amadurecida tecnologia em saúde, nutrição, educação comunitária e conquista da cidadania criada pela Pastoral da Criança, em 1983. Hoje esta experiência está consolidada em mais da metade de todos os municípios brasileiros e sendo exportada a outros países da América Latina e da África. Tratase de uma experiência eficiente de participação comunitária organizada que tem conseguido reduzir a mortalidade infantil e materna a mais da metade nos locais onde atua.

Aperfeiçoada com os avanços da informática, a Pastoral da Criança procura integrar todas as ações básicas de influência sobre o crescimento e desenvolvimento da criança, a partir da gestação até os seis anos de vida, dentro do contexto familiar e comunitário. No final do ano passado, foi convidada pelo UNICEF de Nova Iorque para debater com peritos da Organização Mundial de Saúde e de outras organizações internacionais de diversas partes do mundo, sobre sua metodologia comunitária de implementar os cuidados integrais com a criança na família e na comunidade e seu sistema de informação.

Trata-se de um sistema informatizado que, desde 1987, não somente permite acompanhar os esforços e avaliar os resultados, mas também retornar os dados da avaliação às bases, com estímulos para seu melhor desempenho e planejamento das ações futuras.

Uma Avaliação Qualitativa da Pastoral da Criança foi feita pelo Unicef em 1997. O documento, preparado pela antropóloga Pamela Dias Bermudez, revela extraordinários resultados qualitativos da entidade, não somente em relação aos indicadores de saúde, nutrição e educação mas também de promoção das mulheres e das famílias pobres e miseráveis na luta pela sua inserção social, sua cidadania. Por outro lado, teses de mestrado provam que a Pastoral da Criança realmente vai ao encontro das comunidades mais carentes e que as mães acompanhadas pela Pastoral da Criança sabem significativamente mais sobre indicadores de saúde da criança, como os indicadores do cartão da criança, aleitamento materno e outros.

Berço da Pastoral da Criança, o Brasil conta hoje com uma enorme rede de solidariedade formada por mais de 120 mil voluntários atuando em todo o País. São 103.409 líderes comunitários capacitados e reciclados permanentemente por 5.656 equipes de coordenação, capacitação e acompanhamento que atuam gratuitamente acompanhando por mês a 1.291.375 crianças menores de 6 anos de idade e 64.102 gestantes. Trata-se de um serviço que envolve 886.376 famílias que vivem exclusivamente em bolsões de pobreza e miséria, onde dificilmente os serviços públicos têm condições de chegar.

A Pastoral da Criança tem reduzido drasticamente a desnutrição e a mortalidade infantil a mais da metade nos bolsões de pobreza e de miséria onde atua pelo seu trabalho de educação das mães e famílias a quem presta apoio. Desde seu início, atua de forma ecumênica, supra religiosa e supra partidária, contando com líderes comunitários de diversas religiões e raças que fazem aumentar essa rede de solidariedade a cada mês. Quando conheci em 1996 o Sistema de Saúde de Cuba, surpreendi-me ao verificar que os agentes comunitários daquele país também eram voluntários e senti muito em comum com a Pastoral da Criança. Lá, o Médico de Família e a equipe que trabalha junto com ele são funcionários pagos e se constituem referência desses agentes comunitários voluntários.

Um dos problemas atuais dos serviços públicos e mesmo de certas organizações do Terceiro Setor costuma ser a real transparência de contas. A Pastoral da Criança, com a colaboração de consultores voluntários, de alto gabarito na área de economia e administração, informatizou também a prestação de contas, fontes e destino das verbas e seus resultados, de forma simples e objetiva, capaz de ser compreendida com facilidade. Por esta sua forma de conduzir e gerenciar suas ações, a Pastoral tem recebido prêmios nacionais e internacionais permanentemente.

A Pastoral da Criança representa um pouco da pujança do Terceiro Setor e tem demonstrado que somando esforços com o governo, nos objetivos que são comuns, traz grande retorno. Deve muito ao apoio constante do Ministério da Saúde, desde 1987, o que propiciou seu avanço tecnológico nas ações básicas de saúde, nutrição e educação, e apoio de secretarias municipais e estaduais de saúde. A Pastoral da Criança acompanha ao mês mais de 1.300.000 crianças, menores de seis anos e suas famílias em mais de 28.000 comunidades carentes e bolsões de miséria. Para ajudar as famílias dessas crianças, instituiu em 1991, cursos de alfabetização de jovens e adultos, alfabetizando ao ano cerca de 40.000 jovens e adultos, com apoio principalmente do Ministério da Educação, das secretarias municipais de educação e do Criança Esperança/Rede Globo. Os materiais básicos de alfabetização têm como palavras chaves as ações de saúde e de educação.

Com apoio dos governos municipais e dos Conselhos Municipais de Saúde, que vem crescendo, maior número de famílias poderão ser beneficiadas por essa integração no Sistema de Saúde, fortalecendo sobremaneira o PAB. Neste sentido do fortalecimento do PAB, que significa mudança do modelo de assistência, essencial ao SUS, a Pastoral da Criança tem as credenciais técnicas e humanitárias a ser credenciada também pelos governos estaduais e municipais que queiram dedicar maior atenção às camadas mais carentes da sociedade, conseguindo maiores resultados e, inclusive, economizando recursos destinados à saúde, através do investimento na prevenção das doenças.

Essa conjugação de esforços fortalece a articulação e o retorno dos resultados. A experiência de mais de uma década de soma de esforços com o governo tem demonstrado respeito pela mística e pelo protagonismo do voluntariado sensível ao sofrimento sentido pela população carente, ansioso por mudanças que levem em conta a saúde e a melhor qualidade de vida a todos. Essa é sua alma e motor propulsor.

Para realizar todo o seu trabalho e conseguir os resultados já alcançados, a Pastoral da Criança tem gasto menos de um real por criança ao mês, mostrando que, economicamente, é muito mais barato prevenir as doenças e a marginalidade do que adotar medidas curativas, e, humanitariamente, é muito melhor antecipar-se às doenças das pessoas ou ao abandono das crianças do que investir na sua cura e reabilitação.

Textos de Dra. Zilda Arns Neumann médica pediatra e sanitarista, fundadora e Coordenadora Nacional da Pastoral da Criança; representante da CNBB no Conselho Nacional de Saúde; entre outros, recebeu o prêmio internacional de Administração Sanitária 1994, da OPAS Organização Pan-Americana de Saúde, e o prêmio internacional Humanitário 1997, da Fundação Lions Clube Internacional

Supervisão: Clóvis Boufleur
Textos: Dra. Zilda Arns Neumann
Edição: Thays Poletto

Conselho Diretor
Pastoral da Criança
Fundação Fé e Alegria
Fundação Grupo Esquel Brasil


 
 
 
 
 

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