CNBB - PASTORAL DA CRIANÇA
ACIDENTES NA INFÂNCIA
A participação comunitária na sua prevenção

"Mais vale prevenir do que remediar"
2a. edição
Brasília -1994

APRESENTAÇÃO

Esta Pastoral é movida pela mística cristã da solidariedade. Uma de suas intuições fundamentais é a sua pedagogia de levar o pobre a promover a "vida em abundância" ( Jo 10,10) dos outros pobres.

A Pastoral da Criança cuida de todos os aspectos da vida: o desenvolvimento físico, espiritual e afetivo; a educação essencial, a saúde, a promoção social através da geração de empregos, a alimentação, etc. Nenhum aspecto da educação integral é descuidado.

Infelizmente, no Brasil, conforme se pode ver nas estatísticas apresentadas pela Dra. Zilda Arns, na introdução deste livro, milhares de crianças morrem por acidentes e descuidos de pais, irmãos e outros adultos. Estes acidentes facilmente poderiam ser evitados.

Desejamos que os dedicados líderes comunitários da Pastoral da Criança possam instruir as mães gestantes, suas famílias e comunidades a usarem meios tão simples que possibilitem salvar a vida de tantas crianças no Brasil.

D. Aloysio José Leal Penna, SJ

Bispo de Bauru

Responsável Nacional pela Pastoral da Criança

A Pastoral da Criança é, hoje, talvez, a maior organização do Brasil de defesa e promoção da vida. Ela defende e promove a vida, desde o momento da concepção até aos seis anos, de milhões de crianças.

INTRODUÇÃO

No seu dia a dia de trabalho, os líderes da Pastoral da Criança vêm se surpreendendo com o grande número de acidentes e agressões sofridas pelas crianças de suas comunidades, seja no trânsito Ä atropelamento e outros Ä seja nas suas casas e até mesmo pelos maus tratos de adultos Ä pais, parentes ou vizinhos.

São eles a causa de 100.000 mortes por ano no Brasil, não contando as vidas que se limitam com seqüelas, dos que não morrem mas ficam deficientes.

Entre crianças menores de 1 ano, a asfixia, ingestão de corpos estranhos, quedas e queimaduras s o os mais comuns.

Entre crianças de 1 a 5 anos, os atropelamentos, queimaduras, envenenamentos, sufocações e quedas s o os que mais ocorrem.

Se pensarmos nas dificuldades que experimentamos quando tentamos achar socorro para uma criança que sofre acidente - seja pela inexistência de hospitais e pronto-socorros, pela falta de vagas ou pela má qualidade no atendimento - fica claro que mais vale prevenir do que remediar.

Preocupados, coordenadores e líderes comunitários se perguntam como enfrentar esses problemas. Certamente é um grande desafio para todos nós e deve ser enfrentado por nossas comunidades e pelos governos, somando esforços para o bem comum.

Com esta esperança, juntos, elaboramos este Manual, que pretende não ser um livrinho de orientações para pronto atendimento ou de recomendações, mas visa desenvolver todo um processo de reflexão sobre o problema.

Partindo do cotidiano das mães, utilizando suas experiências e histórias de vida, poderemos, com o auxílio da dramatização e do mapa falante, entre outras técnicas, fazer reflexões que ajudem a criar alternativas possíveis para a transformação do quadro atual dos acidentes na infância.

Que Deus abençoe a todos nós, a cada pequeno grupo da Pastoral da Criança, das zonas rurais e urbanas nessa busca de educação para a VIDA, a fim de que TODOS TENHAM VIDA E A TENHAM EM ABUNDÂNCIA.

Dra. ZiIda Arns Neumann
Coordenadora Nacional da
Pastoral da Criança

ACIDENTES NA INFÂNCIA

"Eu rezo a ti, ó Deus, porque tu me respondes. Portanto, ouve-me, escuta as minhas palavras. Mostra o teu amor maravilhoso, ó Salvador! Protege-me como se eu fosse os teus próprios olhos"

Salmo 17

Como era de costume, numa das reuni es da Pastoral da Criança, o grupo escolheu o tema dos acidentes mais comuns na comunidade, principalmente aqueles que atingiam as crianças; queriam encontrar alguma

solução para evitá-los e saber o que poderia ser feito para socorrer aqueles que não puderam ser evitados. O grupo cantou, refletiu sobre a Palavra de Deus, a partir de suas experiências de vida e começou a partilhar, uma a uma, os acidentes que seus filhos já tinham sofrido, tais como: cortes, ferimentos, quedas, queimaduras, intoxicações e outros. Enquanto estavam falando, uma das mães ia anotando tudo numa grande folha de papel. Isso foi muito útil para as mães irem percebendo o que acontecia de comum ou dediferente nos casos contados e cada uma ir fazendo a ligação com a situaçãode sua família.

A líder estimulou a discussão, perguntando:

- Por que as crianças têm tanta facilidade para sofrer acidentes?

- Em que idade as crianças mais sofrem acidentes? E que acidentes são mais comuns, aqui, na comunidade?

- As condições de moradia das famílias, principalmente das que moram em cortiços, barracos e quartos, têm a ver com os acidentes? Por quê?

- Que outras situações e circunstâncias de vida favorecem os acidentes?

- Quais as responsabilidades dos pais e das pessoas que cuidam das crianças? E o que cabe aos governantes?

No final da reunião, a líder disse que ficar só no blá blá blá, não adiantava e que braços cruzados atrapalhavam.

Vamos, então, descruzar os braços e todas, juntas, preparar outras atividades para refletir melhor sobre os acidentes sofridos pelas crianças e daí tirar algumas ações que as mães possam levar adiante e colocar em prática, mesmo.

As mães sugeriram usar o teatro e a líder lembrou-se do MAPA FALANTE que ela tinha aprendido no último treinamento que fez.

Então, as mães assumiram as tarefas de:

- Dramatizar a história de Joãozinho, contada por Maria, Joaquina e pela líder comunitária;

- E recriar as histórias das crianças que sofreram acidentes na comunidade, nos últimos tempos, através do Mapa Falante.

DRAMATIZAÇÃO

A história de Joãozinho, dramatizada pelas mães

Maria saiu correndo, com a roupa do corpo, gritando e pedindo socorro às vizinhas.

- O que é isso, Maria? O que aconteceu? Está ficando doida, mulher?

- Socorro, Joaquina! Socorro! Meu filho se queimou todinho!

- Como assim? O que andou fazendo o moleque?

- Corre aqui, Joaquina, depois eu conto pra você. Ajude aqui a procurar um pano bem limpo. Vamos molhá-lo com água fervida e fria e colocá-lo em cima das queimaduras.

As duas mulheres cobriam com pano molhado a barriga e as pernas de Joãozinho, enquanto ele chorava e se esperneava. Outras vizinhas foram chegando e perguntando o que tinha acontecido. Cada uma dava o seu palpite: bota goma, pasta de dente, passe sab o, nata de leite, manteiga, margarina, clara de ovo, banana... Será que estas coisas servem, perguntou Maria para a platéia. A platéia foi confirmando essas mesmas coisas.

- Cadê o abano? Coitado do Joãozinho! Abanando, ele se alivia um pouquinho.

Maria lembrou-se de chamar Da. Antônia, a líder comunitária da Pastoral da Criança, que sempre ajudava as mães nessas horas.

Da. Antônia chegou correndo e vendo que a queimadura era muito grande, aconselhou a m e a levar a criança ao médico. As duas saíram correndo e, por sorte, naquele dia, o médico atendia na comunidade. Mas, antes, deu à criança que chorava muito, bastante água e umas gotas contra dor.

Maria contou que Joãozinho estava brincando na cozinha, enquanto ela estava no tanque, lavando roupas. Não sabia porque ele resolveu mexer no fogão e derramou a panela de feijão que estava cozinhando.

- Eu acho até, doutor, que era aquela panela que estava com o cabo frouxo e também devia estar para fora do fogão. Joãozinho é muito danado, doutor...

Enquanto a m e falava, o doutor pediu que a agente de saúde fizesse o primeiro atendimento.

- A queimadura é muito grande, precisamos levar esta criança para o hospital, disse o médico.

- Virgem Maria, ao hospital, doutor?

- Sim, porque Joãozinho precisa de cuidados especiais, Da. Maria.

- Quantos anos ele tem?

- Quatro anos. Mas o hospital fica longe, doutor, e meu marido está trabalhando e eu não posso deixar as outras crianças em casa, sozinhas.

Como o médico já estava terminando as consultas naquele dia, ele se ofereceu para levar Joãozinho e a mãe até o hospital da cidade. Da. Antônia encarregou-se de olhar a casa, as crianças e outros assuntos que Maria lhe pediu.

Joãozinho internou-se, recebeu os cuidados necessários e a mãe ficou ao seu lado até ele se acalmar e adormecer. Já anoitecia. Maria queria saber quantos dias o filho precisava ficar internado e se ficaria com alguma marca. Da. guida, enfermeira, explicou-lhe que se ela visitasse o filho, diariamente, e lhe fizesse muito carinho, ele podia ficar bom mais ligeiro: e quanto à criança ficar marcada para o resto da vida, só Deus podia dizer, pois a queimadura tinha sido muito grande. A líder comunitária sugeriu que a mãe levasse todos os dias mingau de farelo, pois aprendeu que o farelo contém zinco e vitaminas

que s o boas para a pele e ajudam a cicatrizar melhor e mais rapidamente. O médico disse que poderia trazer o mingau, diariamente, sempre que pudesse.

E assim, foram três semanas de cansaço e aflição de idas e vindas ao hospital.

- Que seria de mim, disse Maria, se não fosse Da. Antônia e minhas companheiras da Pastoral da Criança, que se revezaram nos cuidados dos outros meninos.

Na pediatria do hospital, Maria disse que viu muitas crianças acidentadas: ouviu a história de cada uma, contou a sua, ajudou a cuidar de outras crianças, aprendeu muitas coisas e rezou bastante para que todas se recuperassem e não ficassem com defeito algum.

A dramatização foi muito aplaudida. As mães foram convidadas para comer um bolo de multimistura e suco de limão com couve, que elas mesmas tinham preparado. Durante a merenda fizeram muitos comentários sobre a história de Joãozinho, trocaram idéias e se dividiram em dois grupos para discutir:

- Por que esse acidente aconteceu?

- A assistência que Joãozinho recebeu no Posto de Saúde e no Hospital parece ter sido imediata, eficaz e humana. É sempre assim que acontece com as crianças da comunidade? Por quê?

- O que usar em casa, nas pequenas queimaduras?

Meia hora depois, houve uma plenária e cada grupo relatou o que tinha discutido. Houve discordância e surgiu um novo debate. Todas participaram.

Amélia também sugeriu que Da. Antônia pedisse à Irmã Laura, coordenadora paroquial, para conversar sobre Teatro. Todas queriam aprender a fazer bem uma dramatização. A líder achou uma boa idéia, encarregou-se de procurar a Irm e marcou a data do encontro.

Antes de se despedirem, a líder repetiu que o DEBATE após o TEATRO era muito importante para que as mães fizessem a ligação entre a peça e suas vidas. Todas entenderam bem.

Na reunião seguinte...

Cada mãe procurou recordar um acidente ocorrido com crianças de sua vizinhança.

Como todas tinham um caso para contar, Da. Antônia, a líder comunitária, sugeriu que as mães providenciassem umas folhas de papel bem grandes, dessas de embrulho, jornais, revistas velhas para recorte, sucatas, sementes coloridas, folhas, flores e outros elementos da natureza, lápis de cor, pincéis, tintas, cola e tesoura. As histórias das crianças acidentadas seriam contadas através de um MAPA FALANTE.

- O que é um MAPA FALANTE, Da. Antônia?

- Vamos ver já o que é isto.

O MAPA FALANTE

Todas estavam curiosas, querendo saber de que se tratava. O grupo distribuiu as folhas de papel e os materiais e começou a trabalhar.

- Onde ocorrem os acidentes? Indagou Da. Antônia.

- Os acidentes podem acontecer em casa, no quintal, na rua, na creche, na escola, na roça, no rio, na lavanderia... disseram as mães.

- Então, vamos desenhar a nossa comunidade.

A comunidade foi colocada em folhas de papel. De nada esqueceram: uma rua bem comprida, terminando em uma praça; a creche, a escola, a Igreja, o armazém, o Posto de Saúde, as casas; o poço, onde apanhavam água, os esgotos e o lixo à céu aberto; as fossas recém-construídas pela população; a

sede do Sindicato Rural, o Centro Comunitário, onde as mães se reuniam; as árvores; as cercas que separam a vila do engenho, os roçados, os caminhos que levam à cidade, os animais, um caminhão velho do dono do armazém e o rio, que passava um pouco distante.

A reunião foi bem animada, e o MAPA estava ficando bem bonito, com os recortes, as gravuras, as aplicações e os desenhos coloridos.

- Mas o mapa ainda não fala, disse Josefina.

No outro dia...

No outro dia, Da. Antônia pediu que as mães respondessem algumas perguntas, completando os desenhos do mapa:

- Quem mora onde?

- Onde as pessoas trabalham? De que vivem? Como vivem?

- Como se organizam? e quais as suas lutas atuais?

- O que fazem as mulheres e onde se encontram?

- E as crianças, como vivem? Quem cuida delas? De que se alimentam? Onde brincam? Onde estudam?

Pediu também que cada uma localizasse a casa e a família onde o acidente aconteceu. Mas que contasse, desenhando ou recortando e colando no mapa as circunstâncias todas em que as histórias se deram. Para isso distribuiu várias folhas de papel pequeno (10 x 10cm) e mais folhas de revistas velhas, coloridas, para recorte. Da. Luzia foi escolhida para anotar no mapa quantas crianças (menores de 1 ano e de 1 a 6 anos) tinham morrido, ao todo, na comunidade, no último ano, e quantas delas por acidente. Também quantas crianças tinham ficado com alguma marca ou defeito. Esses dados ela conseguiu visitando as famílias, casa a casa.

Começando a falar...

As mães foram colocando as histórias, e pouco a pouco, o MAPA começou a FALAR.

Da primeira criança, nem se sabia o nome! Só que era um lindo bebê de 3 meses, filho de Isaura, empregada doméstica, criado pela avó, com quem morava. noite, como sempre acontecia, sua m e chegava cansada do trabalho e se atirava na cama, com a roupa do corpo. Pegava o bebê, dava de

mamar e cochilava. Numa dessas vezes, a criança rolou e caiu no cimento, batendo com o rostinho de cheio no chão. Por um milagre não quebrou nada. Quando a avó ouviu os gritos, correu para acudir: limpou o ferimento com um pano limpo, água morna e sabão e aplicou compressas de água fria no "galo" que se formou na testa do bebê. Para acalmar a criança, pediu que a mãe a aconchegasse no colo.

Debatendo

- O que você acha desse acidente?

- E que outros acidentes poderiam ter ocorrido nessa situação?

- Quais s o os locais mais seguros para a criança pequena estar e dormir?

- Que direitos da mãe trabalhadora não estão sendo cumpridos?

Nossos Compromissos

- Vamos pesquisar na comunidade, que situações têm facilitado quedas e ferimentos em crianças pequenas?

- Convidar as mães para, juntas, pensarem como evitar esse tipo de acidente?

- Divulgar para a comunidade os direitos da mulher trabalhadora?

Segundo a Constituição Federal, as trabalhadoras da cidade e do campo têm direito à licença maternidade de 120 dias, sem prejuízo do emprego e do salário (Capítulo II - Art. 7, inciso XVIII).

E os pais têm direito à licença paternidade de cinco dias após o parto, para que possam dar assistência ao filho e à companheira, recebendo salário integral (Inciso XIX).

De acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) a mulher que está amamentando, durante os seis primeiros meses, tem direito a 2(dois) descansos, de meia hora cada um, além dos intervalos normais para repouso e alimentação durante a jornada de trabalho. Este período ainda pode ser dilatado, à critério médico. (artigo 396)

A história de Zezinho

Zezinho tinha 6 meses; sua mãe foi lavar roupa no rio e ele ficou sozinho no berço, brincando com seu chocalho amarelo de contas. Por sorte, sua vizinha chegou para pedir um pedaço de sabão emprestado. Que susto! Zezinho estava roxinho. Mais do que depressa fez tudo o que pôde: sacudiu, bateu nas costas,

botou o menino de cabeça pra baixo e tentou retirar a conta com o dedo, não conseguindo desengasgar a criança. Só teve tempo de correr para o Posto de Saúde, que não ficava muito longe. Por sorte, foi logo atendida pelo médico que retirou a bolinha do chocalho, presa na garganta da criança.

Debatendo

- Por que não se deve dar às crianças objetos pequenos brinquedinhos, chocalhos desmontáveis e de contas coloridas?

- Quais os brinquedos apropriados para as crianças nesta idade?

Nosso Compromisso

- Vamos promover um curso para as mães e jovens da comunidade sobre "brinquedos criativos", feitos por elas mesmas?

A história de Geraldinho

Geraldinho tinha 1 ano; era um menino magrinho, mas esperto. Andou até a sala, onde havia um monte de milho seco para debulhar, comeu muitos grãos e ainda meteu alguns pelo nariz a dentro. Quando sua mãe chegou, ele estava tossindo e com muita dificuldade para respirar. Ela tentou tirar alguns grãos, apertando com o dedo a narina que parecia estar livre e fechando a boca do nenê para que ele expelisse o ar pela narina que estava entupida. Mas não conseguiu. O nenê era pequeno demais para entender isso. Teve que largar tudo o que estava fazendo e sair correndo atrás de um médico no Posto de Saúde.

Debatendo

- Que outras coisas, de uso comum, costumam engasgar e sufocar as crianças?

- O que fazer para que essas coisas fiquem longe do alcance das crianças?

Nosso Compromisso

- Vamos discutir com as mães e apontar juntas um jeito para evitar esse tipo de acidente?

A história de Francisquinho

Francisquinho tinha 1 ano e meio. Seus pais chegaram na comunidade naqueles dias, e, como não tinham fogão, improvisaram um braseiro no chão. Enquanto a m e foi na vizinha, a criança andou até lá, abriu a panela, assustou-se com o bafo do vapor e caiu no braseiro. Só se ouviram os gritos. O coitadinho queimou as mãos, os braços, o rosto e a barriga. Era uma ferida só, o bichinho! Como era uma grande queimadura, a m e chamou a líder comunitária para acudí-la. Da. Antônia deitou a criança no colo e deu-lhe bastante água, suco de fruta e umas gotas para aliviar a dor. Logo em seguida, cobriu as queimaduras com um pano limpo e molhado para não grudar nas feridas e saiu correndo com a m e para o hospital.

Debatendo

- Que situações de vida favorece mãe sse tipo de acidente?

- Em que idade as crianças sofrem mais queimaduras? Por quê?

- Onde e quando ocorrem a maioria das queimaduras?

- Relacione o que se deve fazer e o que não é bom que se faça em casa, quando uma criança sofre queimaduras. Explique os porquês.

Nosso Compromisso

- Vamos reunir as mães no Centro Comunitário para conversar sobre o assunto, e tirar um plano de ação para evitar que as crianças se queimem com chama, brasa, fogo, alimentos e líquidos quentes e com ferro de engomar?

A história de Flávio

Flávio tinha 2 anos. Sua m e pediu um pouco de água sanitária (água de lavadeira) para alvejar uma roupa e o que sobrou, despejou numa garrafinha de guaraná vazia e guardou debaixo do tanque. Flavinho gostava muito de refrigerante. Quando viu a garrafinha de guaraná, pegou e bebeu o líquido de um gole só. Logo começou a gritar. A mãe percebeu, porque ele ainda tinha a garrafa nas mãos. Ela não sabia como neutralizar água sanitária, mas se lembrou que para outros venenos as pessoas costumam usar leite e deu à criança, bastante leite, tanto quanto ela pôde tomar. Enquanto fazia isso, a vizinha, que a socorreu, foi providenciar um transporte para levá-lo ao hospital. Flavinho ficou entre a vida e a morte. Sua garganta ficou muito queimada.

Debatendo

- O que vocês acham do hábito da mãe de Flávio de colocar água de lavadeira em garrafa de guaraná e guardá-la debaixo do tanque?

- Que produtos de uso doméstico e agrícola podem envenenar as crianças, se colocados a seu alcance?

Nossos Compromissos

- Vamos pesquisar os produtos de uso doméstico e agrícola usados na comunidade e fazer uma lista de todos eles?

- Vamos convidar as famílias para um debate sobre o assunto e pensar juntos sobre a sua real necessidade e onde eles devem ser guardados? E que outros problemas eles podem causar?

A história de Pedrinho

Pedrinho era um menino de 3 anos. Como toda criança, adorava doces, balas e refrigerantes. Até de remédios ele gostava! Desde pequenino, quando tinha que tomar algum antibiótico, xarope e outros remédios, a mãe lhe oferecia como se fossem doces. Um belo dia, para combater a gripe, deu-lhe um xarope contra tosse que o balconista da farmácia lhe tinha receitado, há mais ou menos dois anos, para seu filho mais velho. Distraidamente, colocou o vidro atrás do filtro, em um lugar onde Pedrinho podia alcançar. Já se pode imaginar o que aconteceu: bebeu o xarope de um gole só! Quando a mãe deu fé, Pedrinho estava dormindo, com dificuldade para respirar e quando foi acudido nem sabia dizer o que tinha. Logo, saiu correndo com ele para o hospital. A espera pelo atendimento foi muito demorada. Quando o médico chegou, disse que Pedrinho estava entrando em coma, por intoxicação do remédio.

Debatendo

- Quais os erros que a m e de Pedrinho cometeu?

- Como se deve encarar os remédios?

- Quais os perigos de se usar remédio por conta própria e de se consultar em farmácia?

- Quais os perigos de se usar restos de remédios e remédios velhos?

Nossos Compromissos

- Vamos apresentar para a comunidade o "Teatro da Vida", inspirado nessa história?

- E no debate, após a apresentação da peça, vamos discutir sobre o uso de remédios?

- Vamos nos organizar para que a comunidade tenha acesso aos serviços de saúde?

Lei no. 8069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente:

Art. 11 - É assegurado atendimento à criança e ao adolescente, através do Sistema Único de Saúde, garantido o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.

A história de Jane

Jane, uma menina bem forte e sadia, criada com leite materno, estava muito feliz com sua festa de aniversário. Fazia 4 anos e já se considerava uma mocinha. A tal ponto que sua mãe confiou-lhe e ao seu irmão de 6 anos, a tarefa de encher três dúzias de balões para enfeitar a casa. Deu-lhes os balões,

o cordão e uma tesoura, recomendando muito cuidado. Mas, encher os balões já era o começo da festa. Ninguém sabe como, no meio da brincadeira, a menina saiu correndo com a tesoura na mão e tropeçou. A ponta da tesoura quase entrou no seu olho, rasgando-lhe a pálpebra - "Jane por pouco não perdeu a vista", disse o doutor, que a atendeu no Hospital. Ester, uma das mães do grupo, acrescentou que uma coisa assim aconteceu com seu sobrinho, correndo com o garfo na mão. Furou o olho e ficou cego daquela vista.

Debatendo

- A gente pode dizer que a mãe de Jane foi descuidada? Por quê?

- Que objetos, de uso doméstico, podem cortar ou furar as crianças?

- Quando e como ensinar as crianças a usar esses objetos com segurança?

Nossos Compromissos

- Vamos fazer uma relação dos cuidados que as mães devem levar mais a sério para evitar cortes e ferimentos em crianças?

- E vamos divulgar esses cuidados para a comunidade, através da rádio local e do Jornal do Povo?

A história de Alberto

Alberto, de 4 anos e meio, estava muito contente porque naquele ano ia passar o S o João na roça de seu avô. Lá, a festa era muito animada: tinha fogueira, quentão, batata-doce, quadrilha e muitos fogos. E o avô havia prometido dar-lhe alguns rojões, traques e busca-pés. Antes da festa, Alberto descobriu o esconderijo dos fogos e quis acender logo o maior de todos. Pegou o fósforo e quando acendeu o pavio, o rojão explodiu em sua mão. Alberto perdeu a mão. Preocupado com a hemorragia que era abundante, o avô do menino, se lembrou de fazer um torniquete que também se faz quando um animal tem ferimento profundo. Foi a salvação, pois a roça ficava longe e se não fosse isso, o menino teria morrido. O avô enrolou uma tira de pano larga e forte no braço, logo acima do ferimento, deu um meio-nó e colocou um pequeno pedaço de madeira. Então, torceu o pedaço de madeira até a hemorragia parar. Não se esqueceu de "tempos em tempos", a cada 10 ou 15 minutos, desapertar o torniquete, para ver se a hemorragia tinha estancado e logo, deu bastante água ao menino, que chorava muito; agasalhou-o com uma manta bem

grossa e levou-o ao hospital. Naquele ano, não houve festa de São João na roça do avô Tomás.

Debatendo

- O que você pensa a respeito desse acidente?

- Que outros tipos de brincadeiras podem ser dadas às crianças, nas festas juninas e outras, em substituição aos fogos?

- Em que outras situações as crianças da comunidade podem sofrer ferimentos graves com hemorragias?

Nossos Compromissos

- Vamos convidar as famílias para um debate no Sal o Paroquial e perguntar por que ainda se usa fogos nas festas juninas, com bom número de crianças e adultos acidentados?

- Informar todos os casos de crianças acidentadas com fogos na comunidade, nos 3 últimos anos?

- Vamos treinar fazer um torniquete?

"Quem protege uma criança contra quaisquer formas de negligências, crueldade e exploração viverá para sempre, através da vida nascente que salvou".

Cardeal Paulo Evaristo Arns

A história de Rosinha

Rosinha era uma menina de 5 anos, filha de Gorete, uma lavadeira que passava todas as manhãs na beira do rio e as tardes na tábua de passar roupa. Desde pequenina, Rosinha ajudava a mãe, pois gostava de fazer o que ela fazia. Uma tarde, como de costume, a mãe estava passando roupa, quando Joana a chamou. Gorete deu um pulinho na vizinha, mas teve o cuidado de desligar o ferro, que estava com o fio descascado e saindo da tomada. Rosinha, percebendo que a mãe tinha saído, aproveitou a oportunidade que desejava e foi recolocando a tomada. A menina, que estava descalça, tomou choque e ficou presa no fio. Ao ouvir os gritos, a mãe saiu correndo para desligar a chave da luz. Em seguida, deu-lhe água e aconchegou-a no colo para que se acalmasse do susto.

Debatendo

- Quais os perigos de fios elétricos descascados e desprotegidos, de tomadas baixas, aparelhos elétricos defeituosos e de instalações mal feitas?

Nossos Compromissos

- Vamos fazer uma lista de todos os cuidados que as mães devem ter com fios, tomadas, aparelhos e instalações elétricas para evitar choques e queimaduras em crianças?

- E divulgar esses cuidados para as famílias e a comunidade, nas reuniões da Paróquia, na Associação de Moradores e no Sindicato Rural?

A história de Tadeu

Tadeu era um menino muito danadinho de 5 anos e meio. Só vivia fazendo artes e desobedecendo, dizia Ana, sua mãe. Uma das coisas que ele mais gostava era fugir de casa para brincar com as outras crianças no rio. O coitado vivia apanhando. Num desses dias, seu pai, ao chegar em casa, bêbado, mandou que ele fosse no armazém comprar café. Tadeu não fez caso do pedido do pai. noite, quando apareceu em casa, o pai, com raiva, deu uma surra tão forte no menino que lhe quebrou o braço.

No outro dia, chorando, com o corpo todo ralado e com muitas dores, Tadeu foi levado para o hospital. A mãe disse ao doutor que o atendeu, que ele tinha caído de um árvore.

Debatendo

- O que você acha da violência sofrida por Tadeu?

- Existem situações e circunstâncias de vida que podem gerar esse tipo de violência?

- Como tratar esse assunto junto às famílias e à comunidade?

Nossos Compromissos

- Vamos pesquisar na comunidade as violências mais comuns sofridas pelas crianças?

- Fazer uma dramatização, mostrando uma situação semelhante à história e promover um grande debate sobre o assunto, após a encenação da peça?

A história de Rita

Rita era uma menina de 6 anos, filha única, que adorava fugir para brincar na casa da Lana, sua amiguinha, que morava do outro lado da rua. Era na casa de Lana que a garotada se reunia, pois lá tinha muito com que brincar e os pais dela gostavam de crianças. Numa dessas vezes, Rita atravessou a rua correndo e, ao olhar para trás, para que a mãe não a visse, foi atropelada por um carro que passava em alta velocidade. Rita foi logo socorrida pela líder e pelas pessoas que moravam na redondeza. A líder da Pastoral da Criança, que há tempos atrás tinha feito curso de "Pronto Socorro", pediu que o pessoal fizesse uma padiola para transportar a criança até o hospital. Enquanto isso, com 2 tábuas, preparou as talas, para sustentar as pernas quebradas. As talas iam do pé até acima do joelho. Não se esqueceu de acolchoá-las com toalhas e de amarrá-las com tiras largas de pano, não muito apertadas e em 4 pontos. O que fez também foi afrouxar as roupas de Rita. Deitou a menina na padiola, cobriu-a com uma manta e, com a cabeça um pouco mais baixa que o tronco, levou-a, com a mãe, ao hospital. Infelizmente, Rita, que teve as pernas esmagadas, ficou aleijada para o resto da vida.

Debatendo

- Como é que acontecem os atropelamentos em nossa comunidade?

- De que jeito se pode treinar as crianças para atravessarem as ruas e terem outros cuidados com o trânsito?

- E o que as crianças devem saber sobre o assunto?

Nossos Compromissos

- Vamos pedir ajuda às professoras do grupo Escolar e juntas vamos ensinar às crianças, que est o na Escola e fora da Escola, a enfrentar o trânsito?

- Treinar como fazer uma padiola para transportar doentes e como fazer uma tala para ser usada em caso de fraturas?

Lei 8069 - Estatuto da Criança e do Adolescente

Art. 12 - Os estabelecimentos de atendimento à saúde dever o proporcionar condições para a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável, nos casos de internação de criança ou adolescente.

A história de Tiago

Tiago tinha 6 anos. Era um menino magrinho e muito sapeca. Seus pais e seus irmãos maiores iam todos trabalhar na roça, no corte da cana. Ele ficava brincando na vila com dezenas de outras crianças, na mesma situação. Numa daquelas noites, quando voltaram, não encontraram Tiago... -"Meu Deus! Onde

está esse menino?" Procuraram por todos os arredores e não o encontraram. No outro dia, seu corpo foi encontrado boiando no poço.

Debatendo

- Por que Tiago teve esse fim?

- Que situações na comunidade podem provocar o afogamento de crianças em bacias, tanques, baldes, poços, cacimbas, rios, riachos e açudes?

Nossos Compromissos

- Vamos organizar um mutirão para proteger o poço que abastece a comunidade, evitando acidentes com crianças, animais e contaminação da água?

- Promover uma reunião no Sindicato Rural para discutir os cuidados que se deve ter para evitar o afogamento de crianças?

- Propor, junto à associação de Moradores, organizar as pessoas em função da luta por creche e pré-escola para as crianças da comunidade?

Art. 13 - Estatuto da Criança e do Adolescente:

- Os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos contra crianças ou adolescentes ser o obrigatoriamente comunicados ao Conselho tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.

A história de Davi

Davi tinha 6 anos de idade. Todo dia acordava cedo e corria para brincar com sua turminha. Era tão animada a brincadeira que nem esperava pela hora de tomar café.

Em uma dessas manhãs, brincando de esconde-esconde, entrou como uma cabra cega no paiol e se escondeu bem debaixo dos entulhos, pensando que ninguém iria encontrá-lo.

Logo se ouviram os gritos, pois por ali também se escondia uma jararaca. Assustada e pisada, a cobra mordeu bem no peito do pé do menino.

Ao ouvir os gritos, a mãe saiu correndo e o pai, que ainda tomava café, saiu atrás. Logo ele se lembrou do que ouviu no programa Viva a Vida da Rádio local: toda pessoa mordida de cobra deve procurar em sua região, o lugar onde tem soro. Por sorte, ele já sabia que era no Posto de Saúde.

Tomaram o ônibus e foram correndo para o Posto de Saúde dar soro ao Davi. As outras crianças ficaram sozinhas em casa, com risco de fazerem outras artes.

Debatendo
- Na sua comunidade, que cobras e outros animais peçonhentos (escorpiões, aranhas,...) costumam morder as pessoas?

- Onde estes animais gostam de viver e por que atacam as crianças?

- Que cuidados s o bons para evitar este tipo de acidente?

Nossos Compromissos

- Vamos fazer uma dramatização desta história para a comunidade?

- Vamos, no final da apresentação, fazer um grande debate sobre o assunto?

- E divulgar no rádio, no jornal e nos serviços de alto-falantes locais onde tem soro anti-ofídico para o caso de necessidade?

"Quando alguém sonha sozinho, então é somente um sonho. Quando muitos sonham juntos, então é o começo de uma nova realidade".

D. Helder Câmara

ENVOLVENDO A COMUNIDADE

"Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer..."

... "Brincando, sorrindo, se movimentando, ensinando e aprendendo, descobrindo a vida e fazendo a vida ser descoberta... uma coisa puxando a outra e as vivências se somando..." Tudo isso e muito mais...

tornaram a partilha de conhecimentos, o TEATRO e o MAPA FALANTE, experiências muito ricas.

Mas, as mães acharam que não deveriam parar por aí. Era preciso levar a questão dos ACIDENTES para todas as mães, famílias, professores e até mesmo para outras comunidades.

Amelinha, uma das mães que participou desde o primeiro dia, e não faltou a nenhuma reunião, sugeriu que no próximo encontro, que já ficou marcado, as mães se organizassem para divulgar o MAPA FALANTE nos

Centros Comunitários das várias Igrejas locais, na Associação dos Moradores, no Sindicato Rural e na Escola. Sugeriu, também, que ele fosse refeito, de uma forma mais resumida e, quem sabe até, se pudesse usar uma forma safonada, fácil de carregar, de dobrar e de ficar em pé. Todas acharam uma ótima idéia.

As mães encarregaram-se de recriá-lo, mais bonito ainda.

- Pudera! disse Mariazinha, agora já estamos bem por dentro do assunto e já descobrimos que somos artistas.

Amelinha disse, também, que gostaria de receber treinamento sobre "PRIMEIROS SOCORROS" para poder atender melhor as crianças que se queimassem, se cortassem ou torcessem o pé, embora soubesse que a missão dela era prevenir e não remediar. Todas concordaram. Da. Antônia, a líder comunitária, ficou de pedir ajuda ao Posto de Saúde e sugeriu que o curso fosse colocado na programação do próximo semestre, que já se aproximava. Por fim, Da. Antônia, a líder, concordou e repetiu: é necessário TIRAR

UMA AÇÃO que o grupo possa levar adiante. E ASSUMIR A AÇÃO. E FAZER MESMO. E para melhorar as situações e as circunstâncias de vida das nossas crianças e suas famílias, qual é a nossa PROPOSTA CONCRETA?

A líder e as mães resolveram elaborar uma PROPOSTA DE AÇÃO e se comprometeram, também, a se engajar com os outros moradores da comunidade, na LUTA por Creche, Pré-Escola, Posto de Saúde, lazer, água, esgoto, moradia, terra, cooperativa e outros Direitos.

A ação libertadora ajuda a mudar a vida das pessoas.

"Depois de Deus, quem mais cria é o povo. Mesmo amarrado, amordaçado, espezinhado, ele cria piadas e receitas, músicas, provérbios e festas, gera progresso, monta cidades. Cria vontade de criar. Claro, quem tem medo do povo procura meter-lhe na cabeça que ele não sabe falar nem fazer. É a tal coisa, se boi soubesse a força que tem, a boiada não seguia um guia de apenas 6 anos rumo ao matadouro(...)

(...)Sim, porque a criatividade não é só capacidade de descobrir macetes originais. É, antes de tudo um modo de ver a realidade, de ser e de viver. É ser curioso, flexível, confiante; ser "gente". É saber dar jeito nas coisas, é transformar lixo em instrumento de conscientização, de organização popular.

Criatividade não é passatempo de fim-de-semana: é programa a ser aperfeiçoado a vida inteira(...)"

(Comunidade Criativa - Fazer Brincando Coelho, M. Josefina e Santos Manoel S.

Ed. Paulinas - SP - 1986)

ORIENTAÇÕES PARA O FAZER
TEATRO DA VIDA
MAPA FALANTE REUNIÃO ANIMADA

..."A atividade séria demais é cansativa e monótona. Educar é ajudar alguém, a se conscientizar e a se libertar. Brincar é se libertar. É descobrir na pintura, no desenho, no teatro, no afeto, no trabalho a própria vida"...

O TEATRO DA VIDA

As mães ficaram muito interessadas em aprender mais sobre Teatro para interpretarem melhor as coisas e os feitos de seu dia a dia. Então, Da. Antônia, a líder comunitária, pediu à Irmã Laura que desse algumas "dicas" para as mães de sua comunidade.

A Irmã Laura ficou muito contente e foi atender o pedido, pois o teatro era o meio que ela mais gostava de usar para retratar os problemas da vida, interpretar as condições sociais e anunciar a boa nova da libertação.

A primeira pergunta que as mães lhe fizeram foi: Como fazer uma boa dramatização?

A Irmã Laura devolveu a pergunta ao grupo:

- Vocês, o que acham? A história de Joãozinho que vocês dramatizaram foi bem representada ou n o? Por quê?

Após muitas discussões, das quais todas participaram, as mães resumiram tudo o que tinham aprendido:

- As atividades de Teatro devem ser feitas brincando e incentivando a alegria, a solidariedade e a cooperação entre as mães.

- A história deve ser uma criação do grupo e todas devem participar dos ensaios, da encenação, dos debates depois da peça e de sua avaliação.

- A peça deve ser o retrato da vida. De início parece difícil, mas uma mãe pode encarregar-se de coordenar e harmonizar as sugestões e as idéias do grupo e fazer a versão final da peça. Depois, todas v o gostar muito dela, pois vão encontrar na peça algo que também lhe pertence.

- É muito proveitosa a participação da platéia, ou seja, das mães que não estão fazendo a encenação da peça. Por exemplo, na história de Joãozinho, quando as vizinhas chegaram e disseram: "bota goma, pasta de dente, passa sabão,... na queimadura", foi muito bom que Joaquina perguntasse para a platéia: Será que essas coisas servem? A participação da platéia na peça desperta maior interesse, anima mais, desenvolve o espírito crítico, ajuda a colocar a vida no palco e o palco na vida e a descobrir que se deve agir desta ou daquela maneira fora da peça.

- É bom que se coloque música nas cenas; muitas músicas populares brasileiras falam da vida e dos problemas do povo. Logo que começam a cantar, os atores s o acompanhados pelas mães. E atores e mães, cantando a uma só voz, dão muita animação à peça. As músicas podem facilitar a compreensão do

conteúdo da peça.

- É indispensável o debate após a peça para que as mães descubram as ligações que existem entre a peça e suas vidas.

- Por fim, podemos traduzir fatos e personagens da Bíblia em fatos e personagens de hoje e criar peças muito interessantes. Para isto, basta fazer algumas perguntas para serem respondidas pelo grupo. Depois, recolhidas e organizadas as respostas, prepara-se a peça. Essa peça pode ter 3 partes ou cenas:

1¦ - representando a situação como é narrada na Bíblia (PASSADO);

2¦ - representando uma situação de hoje, que se assemelha à da Bíblia (PRESENTE);

3¦ - representando um possível FUTURO: todas voltando para seu cotidiano, empenhadas na luta pela justiça pelos direitos de todas as crianças para que elas "tenham vida e a tenham em abundância."

MAPA FALANTE

O que é?

É uma método muito simples de ensino e aprendizagem que consiste em uma série de cartazes murais feitos pelas próprias mães que os criam e divulgam.

Deve ser a oportunidade de aprender pela descoberta, do aprender brincando, do transformar fazendo debates, reflexões, trocando experiências, uma m e aprendendo com as outras. Para que isto aconteça é preciso que exista um clima de amizade e de companheirismo entre as mães.

O MAPA FALANTE pode ajudar a criar um clima de escuta, compreensão e diálogo.

O que visa?

Fazer com que as mães:

- descubram suas necessidades;

- se encontrem e se conheçam;

- sejam valorizadas;

- se unam;

- despertem para um compromisso;

- comecem a se organizar;

- e se engajem na luta para que todas as crianças "tenham vida e a tenham em abundância".

Material necessário:

Folhas de papel de embrulho grande (1 a 2 m e mais) e pequenas (10 x 10cm) de cartolina, sucata, revistas para recortar, desenhos, lápis colorido, pincéis, tintas, tesoura, cola e outros, usando-se, preferencialmente, o que já se dispõe na comunidade. Esses materiais devem ser trazidos pelas próprias

mães, que assim se comprometem com sua própria educação.

Como se aplica?

Aplica-se de forma descontraída no mesmo local utilizado habitualmente para as reuniões. Cada grupo, de 10 a 15 mães, deve ter o seu coordenador. Os papéis-cartazes s o colocados na parede, ou no chão, de modo a permitir o trabalho de várias pessoas ao mesmo tempo. Diferentes temas geram diversos mapas. As pessoas que não participaram desde o início, podem ser integradas a partir da leitura dos mapas.

As mães contam e registram suas histórias, através do desenho, pintura ou aplicações. É a partir da leitura grupal das figuras e situações que se iniciam o diálogo e a reflexão.

A representação e a interpretação da realidade v o estimulando a ação imediata, na medida em que se identificam as causas das situações e circunstâncias de vida que geram os problemas sofridos pelas mães e suas famílias.

O coordenador deve intervir o menos possível, e não se esquecer que as mães não estão sujeitas nem ao tempo nem aos objetivos da coordenação. Seu papel não é de apressar, mas de animar o grupo.

ROTEIRO:

Em clima de informalidade, criam-se SITUA€ ES PROBLEMAS, que suscitam RESPOSTAS.

Por exemplo: Muitas crianças adoecendo e morrendo por acidentes na comunidade.

As mães descrevem os acidentes que seus filhos sofreram; vão buscar informações sobre outros casos que oconteceram, visitando outras famílias, Postos de Saúde e Hospitais; representam as situações no contexto onde ocorreram, verificam porque as crianças estão sofrendo acidentes e são estimuladas a buscar alternativas para AÇÃO.

De início:

- As mães traçam os elementos de fácil reconhecimento: ruas, praças...e os limites da comunidade.

- Quem mora, onde?

- Ponteiam, com legenda, o lugar onde cada uma mora: podem ser usadas casinhas recortadas em papel-jornal ou revista.

- Além das casas, o que mais existe na comunidade? Escola, Igreja, Posto de Saúde, Farmácia, Comércio, etc.

- O que fazem as mulheres e onde se encontram?

- Onde trabalham? De que vivem? Como vivem?

- As crianças, como vivem? Quem cuida delas? Onde estudam? Onde brincam? De que se queixam as mães? Quais as lutas comunitárias, atualmente? As mães têm participação ativa?

- De que adoecem e morrem as crianças menores de 1 ano? De 1 a 6 anos? Quem atende as crianças, quando adoecem?

- Quais os acidentes que ocorreram no ano passado, com as crianças da comunidade? Onde ocorreram? Por que ocorreram? Que seqüelas deixaram? Qual a proporção da mortalidade de crianças com menos de 1 ano e de 1 a 6 anos, que se deve a acidentes?

- E outras questões...

Vantagens:

- Possibilita às mães descobrirem, brincarem e aprenderem junto com outras pessoas.

Dificuldades que podem ocorrer:

- Os coordenadores apressarem as atividades, buscando resultados rápidos, e se esquecerem de divulgar os mapas para outros grupos da população, que não participaram de sua elaboração.

UMA REUNIÃO ANIMADA

Uma reunião não pode ser feita de qualquer jeito. Ela deve ser bem pensada, realizada e avaliada.

- A primeira preocupação é com o local. Onde vamos nos reunir? De preferência, onde as mães gostam de estar, se sintam bem e onde o acesso é fácil para todas.

- Quando será a reunião e quanto tempo vai durar? É preciso ser combinado, com antecedência, o dia e a hora da reunião e o tempo que será utilizado para que as mães, que vivem ocupadas, estejam disponíveis.

- Qual é o assunto e o objetivo da reuni o? Nada mais desagradável do que se participar de uma reunião sem se saber do que se trata ou pior ainda, a reunião não ter um objetivo claro. A sensação que se tem é que se está perdendo tempo, à toa. É indispensável que as mães combinem antes, o que se vai tratar na reunião, não se esquecendo de criar espaços para a motivação e o desenvolvimento de novas iniciativas.

Como organizar uma reunião animada?

Uma reunião animada envolve todos em sua organização e divide responsabilidades. Todas as mães se comprometem com a escolha do local, a data e o assunto da reuni o; com a limpeza e arrumação da sala e das cadeiras; com a decoração do ambiente; com a elaboração de murais, cartazes e outros materiais de ensino; com a preparação da merenda; com a animação através de brincadeiras e cantos, a liturgia e outros, num trabalho espontâneo, aproveitando-se para fazer dele uma recreação e um momento para despertar e valorizar cada pessoa.

Com a participação de todos, é possível evitar cobranças e críticas negativas; as mães aceitar o com mais naturalidade os sucessos e os fracassos, cada uma tendo uma caminhada diferente, sua própria história. É importante o respeito ao particular de cada uma.

E não se esquecer de que, na educação libertadora, o fazer em grupo é muito importante.

Uma reunião animada é muito estimulante; incentiva a alegria das mães, a solidariedade, a cooperação, cada uma esperando sua vez de falar, dando idéias, compreendendo e aceitando os direitos e deveres das outras, ninguém sendo mandona nem querendo ser mais do que as outras; todas se engajam,

responsabilizando-se e aceitando as decis es do grupo.

- É necessário avaliar a reunião?

É indispensável. Sem avaliação, a atividade deixa de ser libertadora, não estimula novas ações, não valoriza os sucessos nem se tira as lições dos erros.

Avaliar é ver se o que se pensou realizar foi conseguido. Pode-se avaliar uma atividade, uma tarefa, uma reunião em função do seu objetivo ou em função de sua metodologia.

Por exemplo, o objetivo da reunião foi aprender a preparar o soro caseiro. Todas aprenderam a prepará-lo bem, usando os ingredientes certos, na dosagem correta de água, sal e açúcar? Misturando-os bem, até dissolvê-los, completamente? O método de ensino foi a demonstração. Todas contaram suas experiências? Tiveram oportunidade de preparar o soro? Compreenderam o por que da mistura e das proporções? O clima foi de descontração, alegria e cooperação?

É indispensável que a avaliação da reunião seja feita em conjunto, para dividir as responsabilidades, levando todos a se comprometerem com o que falam e fazem. Uma boa avaliação, feita em conjunto, deixa o grupo motivado para outras reuni es e outras atividades. Ela é sempre um desafio para melhorar.

- A reunião só se completa, quando o grupo, após a avaliação se pergunta:

- E agora? O que eu posso fazer? O que o grupo pode fazer? o que nossa comunidade pode fazer? E tira uma ação para levar adiante. E assume a ação.

Dicas para a líder comunitária

- Estimule a criatividade, sem podar nem fazer críticas negativas; valorize e estimule as iniciativas, respeitando até onde o grupo pode chegar.

- Não determine o que vai ser feito, mas desperte o espírito de busca e a curiosidade; faça perguntas, levante questionamentos, crie situações problemas.

- Dê orientações, se forem pedidas. O bom é dar dicas. Conduzir uma ação mata a iniciativa, a criatividade e a oportunidade de descobrir. O fazer com liberdade faz descobrir a capacidade, dá segurança e independência.

- Estimule o clima de escuta, de compreensão e de diálogo e evite a competição entre as mães. Incentive a troca de experiências, de idéias, de materiais para que umas aprendam com as outras. Isso é o que se chama de socialização do saber.

- Estimule os participantes que têm senso de humor, os que cantam e tocam para manter as mães animadas e descontraídas. O clima de alegria ajuda na criatividade e facilita a aprendizagem.

Alguns livros que podem ser úteis:

Edições Paulinas:

- "Comunidade Criativa - Fazer Brincando" Coelho, M. Josefina e Santos Manoel
- "Um teatro que liberta" Pastoral de Jovens do Meio Popular - Regional NE II
- "Em busca de uma Pedagogia Libertadora" Pastoral de Jovens do meio Popular - regional NE II

Sociedade Brasileira de Pediatria:
- "Prevenindo Acidentes na Infância"
- "Algumas Recomendações para a Proteção da Criança"

"Estatuto da Criança e do Adolescente"


 
 
 
 
 

Visitantes

Temos 156 visitantes e Nenhum membro online